Doença de Legg-Calvé–Perthes: o que os pais precisam saber
Explico o que é a Doença de Legg–Calvé–Perthes, seus sintomas, diagnóstico, tratamento e prognóstico, com foco no acolhimento das famílias e na prática clínica em ortopedia pediátrica.


Os sintomas que me chamam a atenção são a claudicação (mancar) que piora ao final do dia, a dor localizada no quadril ou referida no joelho, e a limitação de movimento, sobretudo na abdução e rotação interna do quadril. Ao exame físico, avalio alinhamento, força muscular e o padrão da marcha, buscando sinais como o Trendelenburg (queda do quadril do lado oposto ao apoio). Radiografias da pelve em AP e Lauenstein são os exames iniciais de escolha para confirmar o diagnóstico e estadiar a doença. Em fases muito precoces, quando a radiografia ainda é normal ou pouco esclarecedora, a ressonância magnética pode ajudar a identificar o comprometimento da cabeça femoral antes das alterações ósseas ficarem evidentes. Ao interpretar as imagens, observo o grau de colapso e a extensão do envolvimento, pois isso orienta a conduta e permite estimar o prognóstico.
Na minha prática diária em ortopedia pediátrica em Ribeirão Preto, atendo com frequência crianças que chegam ao consultório com história de dor no quadril, na virilha ou até no joelho, acompanhada de marcha discretamente claudicante.
Em muitos desses casos, especialmente entre os 4 e 8 anos de idade, penso na Doença de Legg–Calvé–Perthes, também conhecida apenas como Perthes. Trata-se de uma condição na qual ocorre uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo para a cabeça do fêmur (a “bolinha” do quadril), levando a uma necrose avascular transitória que, se não for bem acompanhada, pode deformar a articulação. É uma doença geralmente unilateral, mais comum em meninos, e que evolui por fases: necrose inicial, fragmentação, reossificação e remodelação. Meu objetivo, desde o primeiro contato com a família, é orientar, aliviar a ansiedade e traçar um plano que proteja o quadril enquanto o osso “se cura” e se remodela.
O tratamento é individualizado e começa com uma conversa franca sobre metas realistas: reduzir dor, preservar mobilidade e manter a cabeça do fêmur bem centrada dentro do acetábulo (a “concha” do quadril), para que ela cicatrize o mais esférica possível. Em crianças menores, com quadros mais leves, frequentemente adotamos medidas não cirúrgicas: ajuste de atividades (evitar impacto por um período), analgésicos, fisioterapia para recuperar amplitude de movimento e fortalecer a musculatura, e seguimento de pertinho com consultas e radiografias seriadas. Em casos muito selecionados, utilizo órteses ou imobilizações temporárias para facilitar a “contenção” da cabeça femoral dentro do acetábulo. Quando a doença se apresenta mais extensa, com risco de deformidade persistente, ou em crianças mais velhas, discuto com a família procedimentos cirúrgicos que melhoram o encaixe e a cobertura da cabeça do fêmur, como osteotomias femorais ou pélvicas, sempre ponderando benefícios, riscos e tempo de recuperação.
Ao longo do acompanhamento, reforço que o curso da doença de Perthes é longo, variando de meses a alguns anos, e que a paciência é parte essencial do cuidado. A idade de início e a extensão do comprometimento ósseo influenciam o desfecho: quanto mais precoce o início e menor a área afetada, melhor tende a ser o resultado a longo prazo. Em todas as fases, priorizo o controle da dor, a manutenção da mobilidade e a proteção articular; incentivo a fisioterapia, que costuma ser protagonista na reabilitação. Também sou transparente quanto aos sinais de alerta que justificam contato antecipado: piora súbita da dor, limitação marcada de movimento ou dificuldade crescente para apoiar o membro.
Para as famílias, minha mensagem é de acolhimento e clareza. A Doença de Legg–Calvé–Perthes pode assustar, mas, com diagnóstico oportuno, plano terapêutico adequado e seguimento próximo, a maioria das crianças evolui bem e volta às atividades. Meu papel é conduzir essa jornada com precisão técnica e cuidado humano, alinhando expectativas e decisões ao que há de mais atual na ortopedia pediátrica, sempre com o olhar atento às particularidades de cada criança e família.


