Pé Chato em Crianças: O Que é o Pé Plano e Quando Realmente se Preocupar
Guia completo sobre pé chato ou pé plano em crianças: entenda as causas, o desenvolvimento normal, como diferenciar variações fisiológicas de problemas reais e quando procurar um ortopedista pediátrico. Informações essenciais para pais e familiares.


Pé plano, pé chato e pé plano valgo flexível da criança.
Referem-se a uma condição muito comum e que recebeu muita atenção e tratamento desnecessário no passado. Nossas crianças tinham que utilizar aquela botinha ortopédica.
Imagine o cenário com a botinha que era pesada, desconfortável, feia e estigamtizante.
Todavia, alguns médicos perceberam que a famosa botinha parecia não fornecer nenhum benefício às crianças. Notadamente, Volpon JB* publicou uma pesquisa com importante reconhecimento no Brasil e no exterior. O Professor acompanhou centenas de crianças e adolescentes (do nascimento aos 15 anos de vida) e concluiu dois padrões importantes sobre o tamanho dos pés:
- Pés chatos são a norma nos bebês: isso é perfeitamente normal nessa fase.
- A "curvinha do pé" aparece com o tempo: o desenvolvimento mais rápido do arco plantar ocorre entre os 2 e 6 anos de idade
A razão pela qual a maioria das crianças pequenas apresenta pés planos é biológica e fascinante. Recém-nascidos e crianças pequenas nascem com uma almofada de gordura natural na planta do pé, especialmente na região do arco plantar. Essa almofada de gordura serve como amortecimento e proteção, mas também esconde completamente a curvatura do arco. Além disso, os ligamentos e tendões das crianças pequenas são naturalmente mais frouxos e elásticos do que os dos adultos, permitindo maior flexibilidade. Essa combinação de gordura subcutânea e ligamentos elásticos faz com que o arco não seja visível até que a criança cresça e esses componentes se desenvolvam e se fortaleçam.
É importante também mencionar que o pé plano pode ter causas genéticas. Se você ou seu parceiro têm pés planos, existe uma maior probabilidade de seu filho também ter. Isso não significa que o filho terá problemas, apenas que a característica pode ser hereditária.
Para diferenciar um pé plano normal de um que realmente necessite atenção, existem alguns sinais importantes que observo no consultório. Se seu filho corre, pula, brinca e participa de todas as atividades típicas da infância sem reclamar de dor ou cansaço excessivo, o pé plano é quase certamente apenas uma variação normal do desenvolvimento. Crianças com pé plano fisiológico não apresentam limitações funcionais e conseguem realizar todos os movimentos normalmente. No entanto, se você observa que seu filho reclama de dor nos pés, tornozelos ou joelhos, especialmente após atividades físicas, ou se ele demonstra cansaço excessivo nas pernas, essas são razões para agendar uma avaliação comigo.
O diagnóstico do pé plano é fundamentalmente clínico e baseado na observação cuidadosa durante o exame físico. Como ortopedista pediátrico, realizo manobras simples para verificar se o arco reaparece quando a criança levanta os dedos do chão ou quando está sentada. Também avalio a flexibilidade do pé, a força muscular e a capacidade funcional da criança. Na maioria dos casos, exames de imagem como radiografias não são necessários, pois podem gerar ansiedade desnecessária sem fornecer informações que alterem o tratamento. Esses exames são reservados para situações específicas onde existe suspeita de uma condição mais complexa.
Conclusão para a família
O formato do pé da criança muda drasticamente durante o crescimento.
Atualmente e, de maneira geral, não há espaço para o tratamento das crianças com palmilha, nem botinha e nem terapias. O arco plantar poderá ser formado naturalmente. Ou não...
Em alguns casos, quando o pé plano causa dor e problemas funcionais significativos, a cirurgia pode ser considerada. No entanto, essa é uma decisão que tomo apenas após avaliação completa e discussão detalhada com os pais.
Meu trabalho é tratar os casos que fogem da normalidade e, também, tranquilizar as famílias que estão angustiadas com o formato do pé de suas crianças.
*Volpon, J. B. (1994). Footprint Analysis During the Growth Period. Journal of Pediatric Orthopaedics.
